07/12/2017

Quinta de Cinema
Bicho de Sete Cabeças



Bicho de Sete Cabeças é um filme de drama brasileiro de 2000 dirigido por Laís Bodanzky e com roteiro de Luiz Bolognesi baseado no livro autobiográfico de Austregésilo Carrano Bueno, Canto dos Malditos. O filme foi realizado com a parceria entre as produtoras brasileiras Buriti Filmes, Dezenove Som e Imagens Produções Ltda. e Gullane Filmes, com a participação da brasileira RioFilme e da italiana Fabrica Cinema e a distribuição da Columbia TriStar, e contou com Rodrigo Santoro, Othon Bastos e Cássia Kis Magro nos papéis principais.

Dois anos e meio depois de ter sido recolhido de todas as livrarias do país por ordem judicial, "Canto dos Malditos" finalmente volta às prateleiras. O livro de Austregésilo Carrano Bueno é um precioso documento sobre os abusos cometidos em hospitais psiquiátricos brasileiros e serviu de base para o premiadíssimo Bicho de sete cabeças, da cineasta Laís Bodanzsky. A nova edição conta ainda com um posfácio inédito, que dá ainda mais profundidade e atualidade à obra. "Canto dos Malditos" é um texto autobiográfico em que o paranaense Austregésilo Carrano Bueno narra sua via-crúcis pelos hospícios de Curitiba e do Rio de Janeiro. Aos 17 anos, em 1974, ele era um jovem rebelde, habituado a fumar maconha e a se drogar com medicamentos de uso restrito, embora não pudesse ser considerado um viciado. Certo dia, o pai de Austry, como ele era chamado, encontrou uma trouxinha da erva alucinógena em sua jaqueta. Sem nem ao menos conversar a respeito do assunto com o filho, ele o internou à força num hospital psiquiátrico de sua cidade, Curitiba, para desintoxicação. Foi quando começou o horror do autor. Ao longo de um ano de internação, Austry foi submetido a dezenas de sessões de eletrochoque, além de ser obrigado a ingerir cerca de 15 comprimidos diários. Ele, que então se preparava para o vestibular, passou a viver cercado de enfermeiros sádicos, psicopatas ameaçadores e loucos que defecavam e urinavam por toda parte. No fim do "tratamento", o jovem rebelde e cheio de vida havia se transformado num ser abobalhado, sem vontade própria, incapaz de se concentrar em qualquer atividade ou mesmo de abotoar uma camisa, com o organismo repleto de substâncias químicas cujos nomes ele jamais saberá. E tudo isso foi feito sem que médico algum o examinasse ou lhe dirigisse a palavra, nem mesmo no ato da internação.


O filme conta a história de Neto (Rodrigo Santoro), um jovem que é internado em um hospital psiquiátrico após seu pai descobrir um cigarro de maconha em seu casaco. Lá, Neto é submetido a situações abusivas. O filme, além de abordar a questão dos abusos feitos pelos hospitais psiquiátricos, também aborda a questão das drogas e a relação entre pai e filho e as consequências geradas na estrutura da família.

Bicho de Sete Cabeças foi amplamente aclamado de um modo geral, recebendo vários prêmios e indicações, dentre eles, o Prêmio Qualidade Brasil, o Grande Prêmio Cinema Brasil e o Troféu APCA de "Melhor Filme", além de ser o filme mais premiado do Festival de Brasília e do Festival do Recife. O filme abriu portas para uma nova maneira de pensar sobre as instituições psiquiátricas no Brasil, e em torno disso, foi aprovada pelo Congresso Nacional uma lei que proíbe a construção de instituições com características asilares, ou seja, as que não garantem os direitos fundamentais dos doentes mentais. Em novembro de 2015 o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.


Enredo

O filme começa com Sr. Wilson (Othon Bastos) lendo uma carta que recebeu de seu filho, na qual este diz estar lhe mostrando "a porta da rua". Após um flashback, a história começa a ser contada: Wilson de Souza Neto, um jovem estudante de segundo grau e de classe média baixa, mais conhecido como Neto (Rodrigo Santoro), tem um relacionamento conturbado com seu pai e sua mãe (Cássia Kis Magro). Ele prefere ficar com seus amigos, andar de skate, pichar muros e fumar maconha. Em um dia, Neto viaja sem avisar para onde vai, junto com Lobo (Gustavo Machado), porém não gosta do que encontra e vai embora.

Sem dinheiro, no meio da cidade de Santos, ele começa a abordar pessoas para pedir dinheiro, mas a maioria recusa. Apenas Leninha (Valéria Alencar), uma mulher num bar, lhe ajuda. Eles vão para a casa dela e depois de comerem, eles se relacionam sexualmente. Após ir embora, ele vai pichar junto de seus amigos, porém eles são vistos e ele é preso, forçando seus pais a buscá-lo na delegacia. Ele e seu pai brigam e quando Neto vai para o quarto, Wilson encontra um cigarro de maconha em seu casaco. Os pais de Neto são aconselhados pela sua filha (Daniela Nefussi), que ajuda a conseguir uma vaga no lugar, a interná-lo.

Seu pai diz que vai levá-lo para visitar um colega no hospital, porém quando eles chegam lá, os enfermeiros o levam a força e ele é internado sem a realização de um exame sanguíneo ou psicológico para constatar a necessidade de internação, recebendo um sedativo antes do diagnóstico do Dr. Cintra Araújo (Altair Lima), que raramente se encontra no hospital. Quando acorda, se depara com Ceará (Gero Camilo), um homem de comportamento hiperativo, e vai até o refeitório, onde encontra uma situação decadente e de descuido. Alguns presos pedem um cigarro para ele, porém eles são afastados pelo enfermeiro Marcelo (Luís Miranda).

Ele também conhece Rogério (Caco Ciocler), um usuário de drogas injetáveis internado por sua família há cinco meses, que lhe diz que é impossível fugir dali e se ele tentar seria drogado com haloperidol ou eletrocutado. Seu colega lhe instrui a não consumir os remédios dados pelos enfermeiros, pois eles despertam o apetite para que os pacientes se alimentem e pareçam saudáveis. Enquanto isso, o Dr. Cintra tem uma conversa na qual ele discute sobre a verba dada pelo governo e que se fosse necessário ele poderia facilmente conseguir pessoas, principalmente sem tetos, para não perdê-la.
Após pelo menos quinze dias de internação, o tempo mínimo para um interno poder receber visitas, os pais e a irmã de Neto vão visitá-lo, descobrem que ele terá que ficar meses no local e mesmo após ele implorar para ser levado embora, eles recusam. Antes do encontro, o doutor disse que ele agiria assim a fim de enganá-los.

Em um dia, Neto tenta fugir aproveitando a distração dos enfermeiros, mas é capturado e, naquela noite, recebe descargas elétricas como punição. De repente, seu pai vai visitá-lo, diz que ele e sua mãe estão sentindo muito a falta dele e que nunca viu ela tão triste. Neto pede que seu pai o leve embora e ele faz isso. Na sua casa, sua mãe pergunta ao garoto abatido, que diz ainda não estar recuperado, se deseja voltar para o colégio ou trabalhar como vendedor e ele decide que quer o emprego. Após a mãe de um amigo seu proibi-lo de visitá-lo e ele descobrir que Leninha é casada, Neto começa a ficar estressado a ponto de abandonar um cliente em meio a uma negociação para passear. Para aliviar tensão, a noite, ele vai em uma festa, onde começa a beber bastante Coca-Cola e cachaça, e após ficar bêbado leva Bel (Talita Castro) para o banheiro; porém, antes que algo possa acontecer, ele se descontrola e começa a destruir diversos objetos. A garota foge e ele é preso por resistir à prisão e internado novamente.

Nessa nova instituição, Neto desperta a ira do enfermeiro Ivan (Jairo Mattos) após contar ao seu superior que ele exagerou ao tentar acalmar um paciente. A partir de então, o enfermeiro fica de olho em Neto e quando o vê não tomando um comprimido aproveita para dar a ele uma injeção. Na noite do mesmo dia, Neto deixa uma enfermeira inconsciente e pede para Biu (Marcos Cesana) colocar fogo em vários medicamentos. Quando Ivan descobre, ele o leva para uma sala isolada e o tranca. Num outro dia, Neto escreve uma carta, e quando seu pai vem visitá-lo, ele apenas a entrega e não quer conversar. Após se recusar a cortar o cabelo, ele é preso novamente num quarto isolado, onde ele põe fogo. Ivan vê e não faz nada e Biu acha que ele morreu, porém abrem a porta e Neto sai de lá. Após ler a carta em que Neto conta tudo o que passou na instituição, seu pai o tira do hospital.


Elenco

O elenco de Bicho de Sete Cabeças, listado a seguir, foi premiado em vários festivais. Seus atores e atrizes receberam prêmios de "Melhor Ator", para Rodrigo Santoro, que fazia seu primeiro longa-metragem, "Melhor Atriz" para Cássia Kiss e "Melhor Ator Coadjuvante" para Gero Camilo e Othon Bastos.

Rodrigo Santoro — Neto
Othon Bastos — Sr. Wilson ou Seu Wilson
Cássia Kis Magro — Meire, mãe de Neto
Daniela Nefussi — irmã de Neto
Jairo Mattos — enfermeiro Ivan
Altair Lima — Dr. Cintra Araújo
Caco Ciocler — interno Rogério
Lineu Dias — interno Jornalista
Gero Camilo — interno Ceará
Marcos Cesana — interno Biu ou Bil
Luis Miranda — enfermeiro Marcelo
Valéria Alencar — Leninha
Gustavo Machado — Lobo
Cláudio Carneiro — Alex
Talita Castro — Bel


Roteiro

Bicho de Sete Cabeças foi o primeiro longa de Bodanzky e segundo ela, o roteiro foi a peça-chave no filme. Muitas pessoas foram atraídas pelo roteiro, como os atores Rodrigo Santoro, Othon Bastos e Cássia Kiss, os produtores Caio e Fabiano Gullane e Sara Silveira, e o co-produtor Marco Müller, da Fabrica Cinema. Para sua adaptação do livro, Bolognesi decidiu trabalhar da maneira mais livre possível, considerando o livro uma peça de inpiração do trabalho, mas com a liberdade irrestrita para inventar situações, personagens ou até modificar a personalidade dos personagens. Carrano logo depois aceitou, conforme o que o roteirista e a diretora disseram: "Nosso desejo era manter a espinha dorsal da história, ventilando-a para o grande público, mas com a liberdade de recriar o que achássemos necessário para a eficácia da narrativa cinematográfica." Bolognesi procurou criar um Neto muito mais tímido do que o articulado e carismático Carrano. O roteirista também queria que Neto não fosse o líder da turma, mas apenas um dos alunos da sala de aula. O objetivo segundo ele "era construir um personagem que espelhasse o espectador comum e não anunciasse um herói." O roteirista também sentia a necessidade de construir um segundo eixo narrativo, então ele construiu uma relação entre pai e filho, outro tabu enfrentado pela sociedade, tratando-a como uma história de amor e ódio. Como inspiração para esse relacionamento, ele citou o livro Carta ao Pai, de Franz Kafka.

A primeira versão do filme foi escrita em 1997 durante uma viagem com o Cine Mambembe. Naquele período, Bodanzky e Bolognesi viajavam pelo interior do Brasil projetando curtas brasileiros em praças e escolas. Essa viagem ajudou Bolognesi a escrever a primeira versão do filme. Depois da viagem, o roteiro foi comentado por Bodanzky e recebeu críticas fundamentais de alguns colaboradores. Durante dois anos, o roteiro foi reescrito cinco vezes. Por último e mais importante, poucos meses antes das filmagens, Carrano leu e aprovou o roteiro.


Música

"Fora de Si"          Arnaldo Antunes        
"O Caminho das Pedras"          Zona Proibida        
"Satélites"          Infierno        
"Abertura e Corredor"          André Abujamra        
"O Buraco do Espelho"          Arnaldo Antunes        
"Eletrochoque e Fuga"          André Abujamra        
"Carnaval"          Arnaldo Antunes        
"No Ponto de Ônibus"          André Abujamra        
"E Só"          Arnaldo Antunes        
"Refeitório"          André Abujamra        
"Seu Olhar"          Arnaldo Antunes        
"Janela de Apartamento II"          Décio Rocha        
"Bicho de Sete Cabeças II"          Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Zeca Baleiro        
"O Nome Disso"          Arnaldo Antunes (remix André Abujamra)









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