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27 de abril de 2019

Resenha #221
A mulher com olhos de fogo - Nawal El Saadawi @FaroEditorial

Título: A mulher com olhos de fogo
Autor (a): Nawal El Saadawi
Lançamento: 2019
Estante: Skoob
Páginas: 176
Editora: Faro Editorial
Comprar: Amazon
Literatura: Estrangeira
Gênero: Não-Ficção
Estrelas: 4/5

Esta ficção é baseada no relato verdadeiro de uma mulher que espera sua execução em uma prisão no Egito. Sua história chega até a autora, que resolve conhecer Firdaus para entender o que levou aquela prisioneira a um ponto tão crítico de sua existência. “Deixe-me falar. Não me interrompa. Não tenho tempo para ouvir você”, começa Firdaus. E ela prossegue contando sobre como foi crescer na miséria, sua mutilação genital, ser violada por membros da família, casar ainda adolescente com um homem muito mais velho, ser espancada frequentemente, e ter de se prostituir... até que, num ato de rebeldia, reuniu coragem para matar um de seus agressores, levando-a à prisão. Esse relato é um implacável desafio a nossa sociedade. Fala de uma vida desprovida de escolhas, mas que em meio ao desespero encontra caminhos. E, por mais sombrio que isso possa parecer, sua narrativa nos convida a experimentar um pouco dessa liberdade encorajadora através das transformações internas de Firdaus. O que acontece com ela é o despertar feminista de uma mulher.


Resenha em parceria com a editora.

A Mulher Com Olhos de Fogo, da autora egípcia Nawal El Saadawi, é um livro bem forte e angustiante. Nele iremos conhecer a história de Firdaus, que nunca teve uma vida fácil. Fadada a conviver numa sociedade onde a mulher não tem valor nenhum, ela abre o livro da sua vida e conta todas as coisas por quais passou, desde sua infância sofrida até chegar na prisão onde está após assassinar seu cafetão.

Firdaus está prestes a contar sua história para a a psiquiatra que está sentada em sua cela da prisão. A psiquiatra está lá apenas para ouvir o que Firdaus tem a contar e ela faz exatamente isso, conta sua história de maneira crua, fria, aberta e sem nenhuma amarra. A voz de Firdaus é ressoa através das páginas e nos atinge, como se estivéssemos sentados lá naquela cela. 

Deixe-me falar. Não me interrompa. Eu não tenho tempo para escutá-la. Eles virão me buscar às seis horas da tarde de hoje. Amanhã de manhã eu certamente já não estarei mais aqui. Nem aqui nem em nenhum outro lugar desse mundo.

O motivo de Firdaus está presa nós ficamos conhecendo já no início: ela matou um homem. Esse foi o motivo pelo qual a psiquiatra se interessou tanto por ela, ela nunca havia conhecido uma mulher assassina e, menos ainda, uma que não fosse tão culpada assim.

O relato de Firdaus começa em sua infância, enquanto ainda morava na casa de seus pais. Ela não se reconhece no meio de sua família e jura que foi trocada. Sofreu mutilação genital quando criança e várias outras privações, até ir morar na casa de seu tio após a morte de seus pais.

É na casa de seu tio que Firdaus se reencontra com a vida. A partir daí, qualquer migalha de afeto que lhe é dispensada ela já acha que é muito, que é especial. No entanto, ao contrário do que Firdaus achava, seu tio não era tão diferente assim de seus pais, mas para ela que ainda era uma criança ele era totalmente diferente.

Mas, nada é fácil na vida, menos ainda na de Firdaus. Seu tio se casa com  uma mulher que vê a menina apenas como mais uma boca para alimentar e ela acaba sendo mandada para o colégio interno. Quando acaba a escola ela se vê obrigada a casar com um homem mais velho.

- A morte chega para todos, Firdaus. Eu vou morrer, e você também. O que importa é como se leva a vida até o momento da morte.

Com um casamento violento, machista e opressor, Firdaus acaba fugindo e a partir daí ela não para mais, apenas quando é presa. Em sua jornada Firdaus descobre que nenhuma mulher é totalmente  livre, sempre haverá um homem tentando tomar controle sobre ela. Sua jornada permeia entre o trabalho legal e a prostituição, algo que só termina quando ela é presa e condenada à morte.

A história é bem densa, ao mesmo tempo em que ela é fluida e nos desperta o interesse de saber quais foram os motivos de Firdaus chegar onde chegou. Ela nos conta sua história de maneira real, como se estivesse apenas relembrado de sua vida uma última vez antes de sua morte.

O livro é dividido em três partes. A primeira e a última parte são narradas pela psiquiatra, quenos conta como chegou até Firdaus e o momento em que ela acabou sua história e foi levada pelos guardas. A segunda parte, a maior parte do livro, é narrada por Firdaus e é repleta de relatos de machismo, violência e abusos que nos fazem pensar sobre o assunto e desejar que esta fosse uma história de ficção, mas não, ela é baseada no relato que a psiquiatra recebeu de uma prisioneira em 1974. 

Eu sei porque eles me temem tanto. Eu fui a única mulher que arrancou a máscara, e eu expus a face da feia realidade deles. Eles me condenaram à morte não porque matei um homem - milhares de pessoas são mortas todos os dias -, mas porque ele têm medo de me deixar viva.

Essa é uma leitura obrigatória. Todos deveriam ler, mas, ainda assim, este não é um livro para todos. Com uma carga muito densa, repleto de violência e machismo, além de mostrar uma sociedade onde os homens demonstram sempre serem superiores às mulheres, não é todo mundo que vai ter estômago de acompanhar a história de Firdaus. Desde sua infância conturbada, passando por um casamento abusivo, uma paixão não correspondia e prostituição, até chegar ao momento que culminou sua morte na forca, o assassinato de um homem.

A edição da Faro está maravilhosa, com alto relevo na capa, a fonte está em ótimo tamanho para leitura e a capa está linda. A editora caprichou bastante no projeto gráfico do livro.

Enfim, eu recomendo esse livro para todos. Esse é um daqueles livros que você termina de ler e ainda continua remoendo a história durante dias e ainda assim não consegue esquecer. Leiam A Mulher Com Olhos de Fogo e conheçam a história dessa mulher que só queria ter uma voz e ser respeitada numa sociedade machista e hipócrita.

Beijos e até a próxima! 

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